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O corpo fala: por que dor e cansaço não são apenas físicos. Reflexões para um ano com mais corpo e alma!

  • Foto do escritor: Patricia Cordeiro
    Patricia Cordeiro
  • 26 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

O corpo está cansado, reclama, clama por nossa atenção, mas não é ouvido...

Não percebemos seus limites e ignoramos a necessidade de descansar; não escutamos a sede e negligenciamos a hidratação; sublimamos a fome para atender ao ideal do magro; deixamos de questionar se, de fato, o que estamos fazendo nos traz prazer e bem-estar.


Sentimos dores, acordamos sem energia, não conseguimos descansar após um dia de trabalho. Vivemos irritados, sem tempo. Nas rodas de conversa, todos parecem estar vivendo da mesma forma — e, pouco a pouco, isso se torna normal. Eis o ponto que precisa ser refletido: tudo isso tem se tornado comum, mas não é normal.


Se o corpo precisa da psique para viver e a psique precisa do corpo para que suas imagens possam existir; se o inconsciente só pode ser experimentado através do corpo, então ignorar os sinais que ele nos envia — indicando limites, necessidades e vulnerabilidades — pode ser compreendido como uma falta de escuta não apenas do corpo, mas também da alma.


De alguma forma, o espírito da nossa época tem buscado silenciar a experiência psicológica do corpo. Padrões estéticos e a medicalização passam a ditar como essa experiência deve ser vivida. Precisamos trabalhar, performar, realizar, conquistar — tudo a serviço de uma lógica que nos suga a alma. E quando o corpo tenta nos alertar sobre esse ciclo, nós o ignoramos. Assim, calamos o corpo e, junto com ele, a alma.


Talvez estejamos esquecendo que não temos um corpo: nós somos um corpo. Um corpo vivo. Afinal, um corpo sem vida é um corpo morto.


Mas o que seria um corpo vivo? O que seria sentir esse corpo vivo? Para além das funções biológicas, talvez seja permitir-se sentir na pele e na alma; permitir-se ser afetado pelo simples, pelo avesso, pelo presente.


Um corpo vivo é aquele que ressoa, vibra, clama, chora. Ele se apresenta diante dos afetos e, sob sua presença, não há como permanecer ileso: as lágrimas transbordam, a pele arrepia, o peito aperta, as pernas falham.


Um corpo vivo é tocado pela psique — e a psique, por ele. Se corpo e alma são uma unidade, não há como um ser afetado sem que o outro também o seja. Não há como esse corpo se sentir cansado, insone, irritado, sem energia, coçando ou doendo, sem que sejamos convocados a entrar em contato com o que isso representa psiquicamente. Como esse corpo que envelhece, enrijece, dilata, amolece se apresenta à nossa vida interior?


Todo sintoma, assim como os sonhos, as sincronicidades e as produções criativas, possui uma função compensatória. Eles podem indicar que o indivíduo não está em sintonia com o Self, tornando-se vítima de suas próprias ambições e afastando-se do sentido e do significado da própria vida.


Inicialmente, os sintomas costumam surgir como disfunções que não configuram uma doença em si. No entanto, quando não são escutados, podem evoluir para adoecimentos, como expressão do distanciamento entre consciente e inconsciente. É na compreensão do sintoma como símbolo — uma ponte possível entre essas instâncias — que o indivíduo pode se aproximar do chamado que está sendo feito e reconhecer em que medida vem se afastando dele.


O que se observa, diante das exigências da contemporaneidade, é uma profunda desconexão corporal, visível em diversas esferas da vida moderna. Os aspectos emocionais são colocados em segundo plano; a individualidade e a autenticidade são desvalorizadas; deixamos de sentir e seguimos as exigências do cotidiano quase anestesiados.


Nas academias, busca-se o corpo perfeito ou a imagem idealizada de si. No entanto, é importante lembrar que essa busca não significa, necessariamente, conexão com o próprio corpo. Exercícios extenuantes, metas cada vez mais rígidas e a constante superação de limites levantam uma questão essencial: há escuta real das necessidades desse corpo?


A serviço de quê impomos o que impomos a nós mesmos? Do prazer e do bem-estar ou de uma exigência social? Que saúde é essa que sobrecarrega o corpo e esquece da alma?


É vital reconhecer que corpo e mente estão intrinsecamente ligados. O corpo acumula as experiências da vida, e essas experiências deixam marcas que impactam suas funções. Precisamos compreender o corpo como uma totalidade, não apenas sob o aspecto físico. Ele se expressa simbolicamente por sua forma, função e constituição, assim como pela linguagem dos sintomas e das doenças.


Uma vez que o processo de individuação exige a integração entre aspectos conscientes e inconscientes, torna-se imperativo estarmos atentos aos sinais do corpo. Não por acaso, ao final do ano, tantos anseiam pelo “merecido descanso”. Mas por que ele se faz tão necessário? Será que atravessamos o ano imersos em uma profunda falta de auto escuta, que se com impõe como uma necessidade coletiva nesse período? Será que o recesso é suficiente para restaurar o cansaço do corpo e atender aos apelos da alma?


Trago essa reflexão nos últimos dias de 2025 como um convite para que você observe como está sua relação com o próprio corpo. Que, em 2026, corpo e alma possam ter espaço em você — não apenas para existir, mas para serem verdadeiramente sentidos e ouvidos.

Feliz 2026.


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