Recomeçar: por que começar de novo não é repetir, mas crescer
- Patricia Cordeiro

- há 1 dia
- 2 min de leitura

Recomeçar, como a própria palavra sugere, parece significar “começar de novo”.
E, ao pensarmos assim, quase automaticamente associamos essa palavra a ideia de repetição — como se estivéssemos voltando ao ponto zero, e talvez por isso recomeçar nos provoque certa ambivalência.
Quando lembramos das dificuldades da etapa anterior, hesitamos.
Postergamos.
Procrastinamos.
Mas recomeçar não significa apagar a história, significa continuar a partir dela.
O medo de recomeçar é memória emocional.
O corpo recorda o cansaço.
A mente relembra a frustração.
A psique tenta nos proteger de uma nova dor.
No entanto, há algo essencial que muitas vezes esquecemos: não somos mais os mesmos.
Cada experiência vivida amplia nossos recursos internos.
Quando há um recomeço, os aprendizados permanecem.
Recomeçar é crescer: a vida não é um círculo, é uma espiral.
É comum imaginar que estamos voltando ao mesmo ponto.
Podemos reencontrar temas semelhantes como desafios parecidos, inseguranças antigas, situações familiares difíceis. Mas estamos em outro nível de consciência, ficam os aprendizados e nesse sentido, recomeçar não é repetir — é crescer.
No mito de Sísifo, vemos a imagem do homem condenado a empurrar eternamente uma pedra montanha acima.
À primeira vista, parece a representação perfeita de um esforço sem sentido — uma repetição infinita.
Mas o que torna uma tarefa repetitiva vazia ou significativa?
Não é apenas o ato em si, mas a consciência que o acompanha.
Quando compreendemos que a psique é quem atribui sentido e valor às experiências, percebemos que até mesmo a repetição pode ser transformadora.
Cada subida da montanha não é igual à anterior, porque quem sobe já foi modificado pela experiência e assim acontece conosco.
Na perspectiva da Psicologia Analítica, o recomeço pode ser entendido como parte do processo de individuação — o movimento contínuo de nos tornarmos quem de fato somos, e para isso se faz necessário integrar aprendizados, revisar expectativas, abandonar identidades antigas e ampliar a consciência sobre nossos limites e potencialidades.
Recomeçar pode deixar de ser uma ameaça quando entendemos que não estamos retornando ao início. Estamos avançando com mais recursos internos.
A pedra pode continuar existindo.
Mas os ombros que a sustentam não são mais os mesmos.
E talvez o verdadeiro crescimento não esteja em evitar novos começos, mas em sustentar o movimento com mais consciência, presença e significado.
Bora recomeçar mais um ciclo, afinal já passou o Carnaval!




