Psicossomática: quando o sofrimento também se manifesta no corpo
- Patricia Cordeiro

- há 16 horas
- 5 min de leitura

O termo somatização é utilizado para descrever situações em que o sofrimento psíquico, emocional ou relacional encontra expressão por meio do corpo. Os sintomas experimentados são reais e podem surgir, persistir ou se intensificar pela interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais.
A pessoa pode ou não perceber a participação dos aspectos emocionais em sua experiência corporal. Por isso, somatizar não significa inventar uma doença, produzir intencionalmente um sintoma ou sentir algo que não existe. Significa reconhecer que corpo e mente não funcionam de maneira separada e que nossas experiências emocionais também mobilizam respostas fisiológicas.
Quando as emoções se manifestam no corpo
Algumas manifestações corporais são pontuais e fazem parte da resposta natural do organismo diante das experiências emocionais. Em uma situação percebida como ameaçadora, desafiadora ou estressante, o sistema nervoso aumenta o estado de alerta e prepara o organismo para reagir.
Nesse processo, podem ocorrer alterações como:
tremores antes de uma prova ou apresentação;
aceleração dos batimentos cardíacos durante uma crise de pânico;
respiração curta ou sensação de falta de ar numa situação de risco;
sudorese no primeiro dia de trabalho;
tensão ou rigidez muscular em um momento de intensa ansiedade;
desconforto gastrointestinal ao passar por um grande susto;
dor de cabeça em momento de maior estresse;
dificuldade para dormir frente a situações familiares difíceis.
Em geral, essas respostas diminuem quando a situação termina e o organismo recupera seu equilíbrio. Não representam necessariamente uma doença, mas podem ser consideradas manifestações somáticas, relacionadas ao modo como o corpo responde ao medo, à ansiedade e ao estresse.
Embora revelem a estreita relação entre as experiências emocionais e o funcionamento corporal, essas reações pontuais não caracterizam, por si mesmas, uma doença psicossomática. Esse termo costuma ser utilizado de maneira mais ampla quando o sofrimento psíquico encontra expressão no corpo, especialmente quando os sintomas se tornam recorrentes, persistentes ou passam a provocar sofrimento e limitações na vida cotidiana.
O que são doenças psicossomáticas?
A expressão “doença psicossomática” costuma ser empregada quando fatores emocionais, relacionais e ambientais participam do aparecimento, da intensificação ou da manutenção de uma condição física.
Nesses casos, pode existir uma alteração orgânica identificável, mas isso não significa que a doença tenha uma causa exclusivamente emocional. Condições de saúde são, em geral, influenciadas por diversos fatores, como predisposição biológica, hábitos de vida, condições ambientais, medicamentos, infecções, experiências emocionais e contexto social.
O estresse, por exemplo, pode influenciar a intensidade e a frequência dos sintomas presentes em condições como:
cefaleias e enxaquecas;
dores musculares;
dor crônica;
síndrome do intestino irritável;
alterações dermatológicas;
algumas condições gastrointestinais;
alterações do sono.
Isso não significa que essas doenças sejam “criadas pela mente”. Significa que sua manifestação pode ser influenciada pela interação entre os diversos sistemas do organismo e as experiências vividas pela pessoa.
Por esse motivo, o mais adequado é compreender esses quadros a partir de uma perspectiva biopsicossocial, considerando o organismo, as emoções, os comportamentos, a história de vida e o contexto social.
Ter um sintoma emocional significa que ele não é real?
Não! Um sintoma influenciado por fatores emocionais continua sendo uma experiência corporal real. Ansiedade, medo, tristeza, raiva e estresse produzem alterações no sistema nervoso, na respiração, na musculatura, no sono, no funcionamento gastrointestinal e em outros processos fisiológicos. Portanto, não existe uma separação absoluta entre o que é “físico” e o que é “emocional”.
Dizer que um sintoma possui componentes emocionais não deveria ser uma forma de desqualificar a experiência da pessoa. Pelo contrário, deveria ampliar sua compreensão e possibilitar um cuidado mais completo.
Ansiedade pode causar sintomas físicos?
Sim. A ansiedade mobiliza os sistemas responsáveis pela proteção e pela sobrevivência.
Quando o organismo percebe uma ameaça, mesmo que não exista um perigo físico imediato, pode desencadear uma série de respostas, como:
taquicardia;
sensação de falta de ar;
aperto no peito;
tensão muscular;
tremores;
tontura;
suor excessivo;
náusea ou desconforto intestinal;
fadiga;
alterações do sono;
dor de cabeça.
Em situações pontuais, essa reação tende a diminuir quando a ameaça passa. Quando o estado de alerta se prolonga, porém, a pessoa pode desenvolver maior vigilância sobre o corpo e interpretar sensações comuns como sinais de perigo.
Nesse ciclo, ansiedade, tensão e sintomas físicos passam a se alimentar mutuamente.
Por que algumas pessoas não procuram psicoterapia?
Muitas pessoas procuram inicialmente atendimento médico porque o sofrimento se apresenta no corpo. Quando existe uma alteração orgânica identificável, pode ser ainda mais difícil considerar que aspectos emocionais também estejam participando do quadro.
Além disso, o encaminhamento para psicoterapia pode ser entendido equivocadamente como uma afirmação de que “não existe nada” ou de que “o problema está apenas na cabeça”.
Entretanto, o acompanhamento psicológico não tem a função de negar o sintoma físico. Seu objetivo é ampliar a compreensão do sofrimento, identificar fatores que podem intensificá-lo e ajudar a pessoa a construir novas maneiras de se relacionar com o corpo, com as emoções e com as situações vividas.
Como deve ser realizada a abordagem desses quadros?
A abordagem não deve ocorrer de maneira isolada, considerando apenas o aspecto físico ou apenas o emocional.
Dependendo das necessidades de cada pessoa, o cuidado pode envolver acompanhamento médico, psicoterapia, fisioterapia, educação em dor, práticas de consciência corporal, atividade física adaptada e mudanças possíveis na rotina.
Uma abordagem integrada pode ajudar a pessoa a:
compreender melhor seus sintomas;
reconhecer fatores que os intensificam ou aliviam;
diminuir a hipervigilância corporal;
desenvolver recursos para a regulação emocional;
recuperar gradualmente atividades importantes;
estabelecer uma relação mais segura com o próprio corpo;
ampliar sua autonomia e qualidade de vida.
O objetivo não é encontrar uma explicação psicológica única para cada manifestação corporal, mas compreender como diferentes fatores estão interagindo na experiência daquela pessoa.
O corpo também participa da experiência emocional
O corpo não deve ser visto apenas como o lugar onde o sofrimento aparece, mas como parte da experiência total da pessoa.
Além da investigação das causas médicas e dos mecanismos fisiológicos, pode ser importante compreender em que momento da vida o sintoma surgiu, quais situações o intensificam, como a pessoa se relaciona com o próprio corpo e de que maneira suas experiências emocionais têm sido reconhecidas e elaboradas.
Isso não significa atribuir um significado simbólico fixo a cada doença ou afirmar que todo sintoma contém uma mensagem psicológica específica. Trata-se de escutar a experiência corporal dentro da história singular da pessoa.
Reconhecer a participação das emoções não diminui a realidade do sintoma. Ao contrário, amplia as possibilidades de compreensão e cuidado.
Corpo e mente não são dimensões opostas: ambos participam da maneira como adoecemos, percebemos o sofrimento e construímos possibilidades de recuperação.
Se você deseja compreender melhor essa relação entre corpo, emoções e sintomas, ou busca um acompanhamento nesse processo, você pode acessar mais conteúdos aqui: Transtornos de Sintomas Somáticos



